Os Tiranos são de onde mesmo?

O processo de Tradução & Localização muitas vezes transcende as fronteiras dos idiomas envolvidos. Para criar uma experiência memorável, temos que levar em consideração fatores como marca, posicionamento de mercado, conceito inicial, estética, público e por aí vai… é quase uma arte ou ciência. O trabalho de escolha de um título apropriado para uma franquia como Dungeons & Dragons é, no mínimo, controverso e delicado. Isto porque envolve uma marca global que já teve legado em português e provavelmente terá continuidade. É necessário observar o que veio antes ao mesmo tempo em que se renovam os conceitos.

Colocadas estas considerações, vamos fazer diferente com o lançamento do mais novo boardgame de Dungeons & Dragons: vamos deixar o público escolher. Como o título precisa ser traduzido (mesmo que parcialmente), pensamos: por que em vez de arbitrarmos internamente qual a melhor opção (segundo nossos padrões e opiniões), não oferecemos ao arbítrio do público três opções que cubram a maior parte das demandas que vemos todos os dias?

Sendo assim, para Tyrants of the Underdark, optamos por uma abordagem tripla:

  • Uma opção de título neutra e mista. Algo que fosse multi-idioma, mais descolado e parecido com o original. Manteria o nome da região sem tradução.
  • Uma opção tradicional e legada, mantendo consistência com o passado.
  • Uma opção inovadora e arrojada, trazendo uma nova roupagem, uma visão diferente para o futuro.

Vamos então analisar cada uma das 3 opções em detalhes:

Opção 01: Tiranos de Underdark

De longe é a opção mais neutra e menos controversa. Praticamente perfeita para quem não quer tradução, ao mesmo tempo em que convida aqueles que não conhecem o idioma a explorar o título. Mantendo somente Underdark sem tradução, temos a maior similaridade possível e 100% de compatibilidade com todos os produtos de D&D existentes ou que venham a existir no idioma original. Seria também a escolha mais acertada em termos das tendências recentes de Tradução & Localização, onde existe uma multiplicidade de idiomas (na mesma frase, nome marca ou título) sem a perda do conteúdo e contexto originais. Todo os tipos de mídias e indústrias já utilizam largamente T&L híbridas. Seja em animações, filmes, romances, séries e até mesmo nos jogos de tabuleiro, temos diversos exemplos funcionais e bacanas. Lógico que pode desagradar o pessoal mais tradicionalista, aqueles que não suportam ver nada fora do idioma natal, o português. Se bem que ser um defensor ferrenho do português nos dias de hoje não deva render muitos frutos, uma vez que a oferta de franquias internacionais cujos títulos tenham sido traduzidos 100% é mínima ou quase nula.

  • PRÓS: compatibilidade total com qualquer material original de D&D produzido (ontem, hoje e sempre).
  • CONTRAS: desagrada os defensores ferrenhos do português, aqueles que só aceitam traduções 100% em nosso idioma, e pessoas que jamais comprariam “Dungeons & Dragons” por que nem isso está traduzido pra começo de conversa.

Para causar treta nas redes sociais e/ou chamar os seus amigos adeptos desta opção use: #TeamUnderdark e acabe com seus oponentes como um drow!

Opção 02: Tiranos do Subterrâneo

D&D já tem um legado de décadas de lançamentos no Brasil. O Subterrâneo foi a escolha de T&L utilizada anteriormente para Underdark. Tivemos contato com o pessoal que fez as traduções anteriores, os quais nos forneceram excelente colaboração. O Subterrâneo é uma escolha simples, funcional e elegante. Talvez não tenha o mesmo “flavor” de fantasia do nome original, mas indiscutivelmente funciona. A única falha de O Subterrâneo (em nossa opinião) é sua limitação em definir precisamente a diferença entre qualquer região que se encontre abaixo da terra, portanto no subterrâneo, sem necessariamente ser Underdark (“O” Subterrâneo). Embora Underdark tenha diferentes camadas (de acordo com a proximidade da superfície), existem diversas cavernas subterrâneas que não se conectam com O Subterrâneo (Underdark). Da mesma forma, um drow em Menzoberranzan e uma formiga no formigueiro ambos estão no subterrâneo, mas somente o primeiro está NO Subterrâneo (Underdark), capiche?

  • PRÓS: continua o legado, não desafia o status quo e mantém continuidade com o material já publicado em português.
  • CONTRAS: um substantivo utilizado como nome de uma região que pode falhar ao determinar a localização exata de dois seres no subterrâneo quando somente um está NO Subterrâneo.

Para causar treta nas redes sociais e/ou chamar os seus amigos adeptos desta opção use: #TeamSubterrâneo e controle as mentes mais fracas como um Mindflayer…ops, Devorador de Mentes!

Opção 03: Tiranos da Umbreterna

Esta seria a aposta mais ousada e desafiadora. Para quem gostaria de reescrever um novo começo para D&D ou que procura um termo próprio para Underdark, a opção Umbreterna seria a mais indicada. Diferentemente do que a Whitewolf nos fez acreditar com o RPG Werewolf the Apocalypse, a Umbra não é uma dimensão paralela e espiritual do nosso mundo, mas simplesmente a parte mais escura da projeção de uma sombra, segundo os conceitos de óptica. Umbra também é a palavra em latim para sombra/escuro e a parte dela que não recebe nenhuma incidência de luz. Seguindo o conceito original de Underdark, temos uma região que está permanentemente privada da luz do sol, encoberta pelo manto eterno das sombras mais escuras e onde somente os seres com infravisão (ou adaptações sensoriais equivalentes a visão com baixa/nenhuma luminosidade) conseguem se localizar. É muitas vezes a temperatura, e não a luz, que os seres de Underdark captam em seu espectro visual. Conceitualmente, é importante frisar que Underdark não é o reino subterrâneo de todo o mal, mas um reino privado de luz, uma região escura por suas características geográficas, não mágicas. Embora a maioria das criaturas que habitem Underdark tenham alinhamentos malignos, existem muitas raças que vão contra essa corrente, tais como anões, gnomos e fungos – sendo Auraemycos talvez o exemplo mais pungente. Existem lugares e planos em Faerûn onde a maldade faria Underdark parecer um mundo de fadas, portanto palavras que indicassem exclusivamente o MAL, não descreveriam o local com exatidão, por isso foram descartadas. Já no viés estético, a palavra Umbreterna tem características marcantes, tais como a gráfico-visual: com a inicial “U” e 10 letras, mantendo uma similaridade com o original Underdark; a morfológica: por ser composta; e a fonética: por ter as mesmas sílabas tônicas. De todas as opções que exploramos, nenhuma captou a essência de Underdark tão harmoniosamente quanto esse neologismo. A título de curiosidade, a tradução alemã ficou Reinos de Baixo ou Reinos subterrâneos ou Subreinos e a francesa Sombraeterna (ambas em tradução livre).

  • PRÓS: deixa o título 100% em português, reescreve D&D com uma T&L mais moderna.
  • CONTRAS: é diferente.

Para causar treta nas redes sociais e/ou chamar os seus amigos adeptos desta opção use: #TeamUmbraeterna e dizime seres inferiores com a fúria de um Demogorgon!

Esperamos que possam escolher com sabedoria, experimentando (talvez pela primeira vez) a possibilidade de definir o futuro de um produto do gênero em nosso território. Faça valer a sua vontade e movimente suas redes sociais para influenciar positivamente o titulo da sua preferência. Aproveite também este exercício interativo para conhecer melhor a dínânica do público, que muitas vezes difere das nossas opiniões, por mais fundamentadas que sejam.

Curta o experimento, faça valer suas escolhas e aprenda cada vez mais sobre esse nosso hobby!

Por |2017-02-07T21:20:37+00:007 de fevereiro de 2017|Boardgame, Dungeons & Dragons, Tradução e Localização|0 Comentários

About the Author:

Deixar Um Comentário