D&D, um novo começo?

Olá Pessoal,

Indo direto ao ponto: hoje vamos conversar sobre o possível retorno de Dungeons & Dragons ao Brasil.

Mas peraí… retorno? Pra começo de conversa: ele chegou a sair daqui?

Então meus caros, esta é uma conversa no mínimo complicada.

Vamos começar dando um direcionamento à nossa conversa. Como esse tema é extenso e pode se ramificar com facilidade. Concentrai-vos hoje nos aspectos corporativos que envolvem o lançamento [ou não] de um produto internacional.

E para começar, com uma pequena sessão de nostalgia…

Para os veteranos como nós aqui da equipe, Dungeons & Dragons foi – lá por meados do final do século passado – um dos primeiros contatos com o RPG. Aquelas ilustrações fabulosas das capas dos livros e boxed sets eram de arrepiar e só de olhar dava vontade de ter tudo (mesmo não entendendo nada do que estivesse escrito nelas). Esse era um problema comum a muitos de nós: o idioma. D&D é um produto, tem MUITO texto e na época era 100% em inglês. Como tal, enfrentou um desafio tão específico quanto a sua própria condição de produto onde a criatividade e a imaginação eram os únicos limites: a internacionalização.

Ora vejam que ironia: um produto que precisava (em termos comerciais) se expandir para “novas terras” e alcançar novos públicos sendo que este mesmo produto (em termos de concepção/função) te remete a terras distantes e te proporciona diferentes cenários fantásticos como plano de fundo; além disso te dá todas as ferramentas necessárias para narrar histórias ricas em termos de geografia, personagens, regionalismos, criaturas, raças e etnias nesses mesmos cenários. Ele mesmo enfrentando o desafio de transpor os limites de seu próprio “reino” e sair dos EUA. Preso às rédeas do idioma inglês, esta seria (ou talvez ainda seja) a maior aventura que o próprio D&D enfrentou como produto.

Eis que um dia ele alcançou nossas terras e finalmente vimos o D&D (até então conhecido como AD&D) totalmente em português. O tamanho, poder de fogo e escopo da primeira editora (Abril) que o trouxe ao Brasil não foram suficientes para garantir o sucesso do jogo e infelizmente essa primeira incursão em nosso território não foi bem sucedida. Ele acabou ganhando seu espaço em nossas terras a partir da Terceira edição, lançada pela Devir, uma editora menor só que mais especializada no assunto. Por aqui ficou circulando por pelo menos mais duas décadas e teve diversos produtos sendo lançados em português. Tudo pareceu chegar a um fim a partir do D&D Next (ou quinta edição) quando a Wizards of The Coast anunciou oficialmente que não haveria mais produtos de D&D traduzidos para outros idiomas. Para alguns – aqueles que tinham alguma proficiência com o idioma inglês – isso nem sequer foi um problema, para outros foi o final de uma era de aventuras em nosso idioma natal.

Resumido em um parágrafo, esse foi o breve histórico dessa franquia nos pouco mais de 20 anos de sua existência em português.

O mundo mudou, as coisas mudaram, a sociedade mudou e todas as pessoas mudaram. Seria difícil imaginar que os produtos também mudariam para se adequar ao novo público? Principalmente se o fizessem sem perder a identidade para o seu público lá do século passado? E agora? Como fazer para misturar toda essa gama de informações em um liquidificador e ainda assim fazer um produto interessante para gerações tão distantes uma da outra? Como permanecer com aquele apelo que sentíamos quando éramos crianças e ainda despertar nosso interesse agora adultos? E como despertar o interesse nos jovens… porque concordemos: o jovem de hoje dificilmente se interessaria pelas coisas que nós, jovens de ontem, nos interessávamos, não é mesmo?

Essas são algumas das perguntas que empresas com várias décadas de vida são obrigadas a buscar, do contrário não permaneceriam ativas e competitivas hoje.

Nossa equipe teve a oportunidade e o prazer de trabalhar em empresas centenárias. O dilema – podemos afirmar com propriedade – é o mesmo em todas elas: reinventar-se. O que antes era feito com décadas de intervalo, talvez hoje seja necessário fazer em anos, meses. Os interesses mudam tão rápido que fica difícil prender a atenção de alguém por alguns minutos… E o que dizer de prender o interesse por anos, então?

D&D é um exemplo de produto que passa por esse dilema… e sobrevive.

Alguns dirão que mal sobrevive, que está mal das pernas; outros dirão que vai bem e está em sua melhor fase. Para dizer a verdade nua e crua: pouco interessa se ele vai bem ou mal sob a ótica do jogador e entusiasta. Do ponto de vista estritamente comercial ele não estaria mais disponível se já estivesse obsoleto. Isso é garantido: nenhuma empresa seria idiota o suficiente para ter uma postura inflexível. Algo assim hoje em dia não causaria simplesmente a obsolescência dos produtos, mas da própria empresa em si. Quem tentou desafiar essa regra, não sobreviveu para contar a história, só para virar História.

E novamente: D&D é um exemplo de produto que passa por esse dilema… e sobrevive.

D&D sobrevive por que está sempre se reinventando ou está sempre sendo reinventado para sobreviver?

O eterno dilema da Tostines pode até ser velho, mas ainda funciona!

Ela vendia mais por que era fresquinha, mas haviam aqueles que diriam que ela era fresquinha pq vendia mais.

O Slogan era perfeito! Não poderia descrever melhor esta fase do D&D: ele está fresquinho, novinho, diferente sim… e por isso vende mais! E é exatamente por vender mais que ele continuará fresquinho e mudando, sim. Gostemos disso ou não…. é inevitável.

Saibamos analisar as coisas com as lentes corretas: vamos olhar o passado e o presente e identificar que o momento de D&D (e de toda a nossa sociedade, não só o Brasil) era completamente diferente nas duas décadas finais do século passado quando comparado com os dias atuais: quase três décadas depois.

Essa pequena introdução foi necessária para abordar uma questão mais específica: mas afinal, se uma empresa com a WoTC disse que não veríamos D&D em outros idiomas, como é que estamos começando a ver produtos de D&D sendo anunciados em outras línguas fora o inglês?

Simples, meus caros: adaptação.

Ah, mas não é um produto da WoTC! Será que não é? Você está lendo as entrelinhas corretamente? Percebe  algo mudando? Não está notando a marca dela associada a outras? Preste mais atenção aos rótulos, leia as letras miudinhas, veja se ela não está lá bem mais presente do que você supunha. Mesmo não pondo a mão em tudo, ela continua com pelo menos um dedo em cada bolo… digo: produto.

Eu devo dizer que as corporações podem assumir uma postura publicamente e ter sua agenda de interesses sendo vastamente discutida de forma privada. Isso é uma coisa normal quer aceitemos ou não. O posicionamento público de uma corporação não reflete integralmente os seus interesses e muita coisa é, sim, discutida nos bastidores antes de ser revelada. Inclusive o fato de uma empresa ter se posicionado oficialmente que não faria algo não significa que ela vai manter essa postura de forma permanente. Nada como um dia após o outro, nada como a mudança, nada como o tempo e novos ambientes de negócios. Adaptação baby, adaptação!

Nós temos a tendência de achar que os posicionamentos das empresas são estáticos, mas nada tão antinatural hoje em dia quanto a estase. Não há nada ousadamente mais perigoso que uma empresa moderna poderia fazer do que se manter inflexível quanto às suas próprias decisões. É preciso reavaliar diariamente o nosso posicionamento, questionar se ele permanece como a melhor opção corporativa e para nosso público/clientes. Isto é, se quiser se adaptar ao nosso tempo.

Dito tudo isso, fica claro que D&D está sendo avaliado para o nosso mercado novamente. A questão já está além do mero “vai ou não lançar em português”, é agora uma questão de avaliar se realmente vale a pena o esforço desse trampo épico.

Se realmente acontecer esta será uma nova era para o produto. Esta é simplesmente uma nova fase para o D&D, uma nova abordagem. Ele não vai “aparecer por aqui pela primeira vez”, ele não está chegando aqui no final do século XX, ele não está chegando em um momento onde as pessoas mal têm internet ou acesso à informação, nem em uma época onde mal havia exposição ao idioma inglês e, por fim, definitivamente as pessoas que curtiam D&D não são e/ou não estão mais as mesmas. Existe um legado passado do produto? Sim! Expectativas e novas diretrizes para o futuro dele? Com certeza! Com tudo isso diferente, será que é normal achar que faremos tudo igual e assumir uma posição para o produto idêntica (ou muito semelhante) à adotada desde os seus primórdios em português? Faremos tudo da mesma forma para preservar esse histórico? Devemos fazer mais do mesmo, só pq já foi feito assim antes? A resposta não poderia ser mais dura e direta: definitivamente não!

E se a resposta fosse diferente talvez não sejamos a editora mais adequada para trabalhar com essa marca. E digo isso sem medo de errar.

Isso significa que desconsideraremos os trabalhos anteriores em português feitos para o D&D? Nós vamos ignorar as traduções antigas? Muito pelo contrário. Todo o esforço dos diversos profissionais e apaixonados que viabilizaram cada magia em nosso idioma é nosso ponto de partida para qualquer decisão. A grande diferença em nosso posicionamento de Tradução e Localização não é de usar as edições anteriores de D&D em português como destino, mas sim com ponto inicial. Não desejamos chegar no mesmo resultado que as outras edições, desejamos chegar em outros resultados a partir dessas edições. O legado de D&D no Brasil não se torna um fim, mas um meio para algo… melhor? Eu diria, diferente.

Teremos ainda muito chão, muita conversa, muita troca de ideias. Como estou dizendo desde o começo: o momento é outro e como tal demanda uma releitura completa do posicionamento do produto em nossa cultura. Não é uma inserção, é uma reinserção. Para isso não poderíamos fazer de forma mais significativa do que envolver toda a comunidade interessada em algumas tomadas de decisões, ajudando assim a moldar o destino do próprio jogo.

Afinal, qual seria a melhor forma para direcionar o futuro da maior franquia de RPG do que deixar os próprios “players” decidirem?

Para os DMs atrás do “escudo” só restará uma questão: adaptação!

Por |2016-12-16T21:51:23+00:0016 de dezembro de 2016|Dungeons & Dragons, Novidades, Tradução e Localização|0 Comentários

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