Olá, kroníades, eis-nos reunidos mais uma vez. Imaginem vocês do nada meu Dominus chegando pra mim e dizendo: “Escravo imundo, senta o dedo no palavrão!”

“Sentar o dedo em quem, ó poderoso Dominus?”

“No palavrão, seu maldito lambedor de bo%&$@!”

“Qué isso, ó divino Dominus, sou mais chu%@$ o pau espinhoso de Plutão!”

Quê? Vocês acham que eu não passo de um escriba qualquer?! A maldade está na cabeça de vocês, seus puxa-sacos dos deuses! O que meu Dominus disse, sem censura, foi ““No palavrão, seu maldito lambedor de boneca!”. Ao que respondi: “Qué isso, ó divino Dominus, sou mais chutar o pau espinhoso de Plutão!” Estão pensando o quê…

O fato é que, depois de me xingar, é claro, só para dar mais exemplos de como eu deveria escrever este número da série Localizou a Tradução (veja os anteriores aqui nesse link), o Dominus da Casa Kronos explicou que, embora tivéssemos prometido falar, neste número 003, sobre porque não traduzimos o título do Thief’s Market e quais traduções dispensamos, agora o Dominus ordenava que eu escrevesse sobre os desafios da tradução da sua nova ninfa dos olhos, o Spartacus: Um Jogo de Sangue e Traições. Pois bem, como este escriba bem sabe que quando um bu… quer dizer, um Dominus fala, o outro bur… quer dizer, humilde escriba abaixa a orelha, lá vamos nós.

De cara, todo o mundo, ou quase, sabe que Spartacus, a série da Starz, gerou controvérsia desde o início por causa de seu conteúdo obsceno, tanto no que tange violência quanto no que toca sexo e uso (e abuso) de calão. No que diz respeito à esta última acusação – aquela que importa nesta nossa discussão sobre TL (tradução e localização) –, os fofoqueiros bastardos de plantão bem o sabem que os deuses-produtores da série tiveram lá suas justificativas, como o fato de que, a julgar pelas fontes histórico-literárias, oras, pelas bolas de Júpiter!, simplesmente era assim que os romanos falavam, só que soava mais bonito, igual coro de igreja e não igual a funk de cachorro loko porque era dito em latim!

O board original, do seu lado, e graças a esses malditos deuses do… baralho (há vários no jogo ;-), não deixou barato e enveredou pelo mesmo caminho; e toma-lhe palavrões, traições e sangue pra tudo quanto é lado… e tudo quanto é dado!

Nesse sentido, contrariando o espírito traiçoeiro da série, fomos muito fiéis ao original: não poupamos nas maldições e palavrões. Assim, o famoso Jupter’s Cock virou “Pelo pau de Júpiter”; a citação de Gnaeus, “I will fuck your corpse”, virou “Vou foder o teu cadáver”. Sem muita oportunidade (e necessidade) de reinventar a roda por aqui.

Dentre os desafios rotineiros na TL de boards, citemos a nossa “mão máxima”, que designa o número máximo de cartas que os jogadores podem ter em mãos, no lugar de hand size, cuja tradução literal, “tamanho da mão”, soa canhestra e possui um duplo sentido pouco prático. E o nosso “proficiência – ascia (latim para “machado”)” ou “proficiência – galea (latim para “elmo”)”, que traduzem, respectivamente, ascia training e galea training, os quais, traduzidos ao pé da letra, dariam “treino em ascia” e “treino em galea”, traduções que poderiam dar a entender, numa primeira leitura, “treino no reino da ascia”, “treino no reino da galea”, ambiguidade que não ocorre na nossa opção.

Entre as traduções que, acreditamos, apuraram a capacidade descritiva dos termos originais, destaquemos “tabuleiro de casa”, que escolhemos no lugar de “carta de casa” – tradução literal de house card –; neste caso decidimos pela primeira opção por duas razões: primeiro, trata-se de uma carta grande, logo, mais do que carta, o que tínhamos era um “cartão”, mas em vez de “cartão de casas” preferimos “tabuleiro de casas” por conta da utilização da peça: quem conhece o jogo sabe que ela funciona como um verdadeiro minitabuleiro exclusivo de cada jogador – ela chega até mesmo, diferente das cartas, a ser feita do mesmo material que o tabuleiro principal…

…que, por sua vez, entre as traduções que, cremos!, reforçaram a temática, no lugar do nome padrão original, game board, recebeu a designação de “tabuleiro-arena”: afinal, trata-se de um tabuleiro que representa uma arena!

Ainda no que diz respeito às traduções que trouxeram um pouco mais de foco no tema do que as opções originais, citemos a escolha de “casa patrícia”, no sentido de casa nobre – patrício sendo um adjetivo que designa nobreza em Roma, indicando descendência dos pais (patres) fundadores –, termo que usamos, muitas vezes, no lugar do house utilizado exclusivamente no texto original, ou seja, apenas “casa”, sem o acompanhamento de “nobre” ou “patrícia”, o que, sentimos, em determinados casos e contextos, como na primeira aparição da palavra house no manual, passava a impressão de “casa qualquer” e não de “casa aristocrática”. Citemos a escolha de “gládio” no lugar de sword (“espada”). E citemos, também e por último, o uso generalizado de “denário” no lugar de “ouro”, tradução literal do gold onipresente no original (em que pese o uso pontualíssimo, no manual e nas cartas em inglês, do latim denarii).

Esses são, naturalmente, apenas alguns exemplos que, esperamos, servirão de primeira e humilde ilustração da política/filosofia de TL que adotamos aqui na Casa Kronos desde antes da fundação de Roma por Remo e Rômulo, política e filosofia que vocês podem conferir em maiores detalhes no primeiro e segundo números desta série de postagens dedicadas ao assunto.

Agora imagem vocês se, depois de receber como pagamento por este texto, esta Magnum opus da venerável arte da retórica latina, no lugar dos prometidos e reluzentes denários, castigos e chicotadas, este humilde escravo não estará pensando seriamente em se rebelar e fazer com seu Dominus exatamente o que Spartacus fez com o seu 😉

Por |2016-08-22T21:38:34+00:0022 de agosto de 2016|Boardgame, Spartacus, Tradução e Localização|0 Comentários

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