Kroníades, reuni-vos para mais uma assembleia olímpica! Desta vez, vosso humilde servo-tradutor/localizador, Fábio Gullo, retorna aos píncaros do monte Kronos para um papo informal (informal?) sobre o processo de TL do nosso primeiro título, o muito aguardado Thief’s Market.

Mas que monstruosidade mitológica é essa que nos espreita, Fábio, essa tal de TL? Seria o Tira Línguas? Talvez o Tirano de Lepanto (uma cidade na Grécia)? Nada temam, ó bravíssimos kroníades, trata-se apenas do inofensivo processo de Tradução/Localização do jogo, o qual já explicamos e comentamos na primeira parte desta série em: Localizou a Tradução? #001: Por dentro do Thief’s Market

Aqui, na segunda parte, quero ilustrar, com um exemplo, porque tradutores precisam estar sempre com os dois olhos bem abertos – ou porque tradutores não devem usar tapa-olhos!

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Para tanto empregarei justamente a carta Tapa-olho da Chefia, tradução que adotamos para Eyepatch of Command. Nossa escolha, ao cabo, se baseou nas diretrizes que havíamos assumido para a tradução do jogo, conforme a postagem anterior:

Dar preferência a termos próprios brasileiros, porém, dentre estes, aos de uso o mais comum, isto é, os de maior circulação no território nacional, evitando, sempre que possível, termos excessivamente regionais;

Inspirarmo-nos na nossa famosa malandragem e no tal do jeitinho brasileiro, duas ideias que têm tanto a ver com o tema do jogo e que, principalmente, são exclusivas da nossa cultura;

Optar, se necessário e quando possível, pelo “mais legal” no lugar do “mais correto”

Levado tudo em conta, fica claro porque escolher a palavra “chefia” no lugar de “comando” ou seus sinônimos: a primeira é tipicamente brasileira, é de uso geral no país, é malandra e, achamos, também é legal! (Mais legal que a alternativa, “patrão”, que em si mesma não é ruim, não acham?)

Porém, no caso dessa carta, não foi só isso. E eis porque tradutores, especialmente os de jogos, devem estar sempre com ambos os olhos bem abertos, sempre dormir com ao menos um olho aberto (qualquer um dos dois serve… creio), enfim, porque não devem sair por aí ostentando tapa-olhos (mesmo que pertençam à chefia, o que raramente é o caso; e por falar nisso, ei, chefinho, cadê meu aumento?).

O caso é que nossa equipe de TL, aqui na Kronos Games – por enquanto só eu e o Persio, ele mesmo, O CHEFE –, trouxe a experiência e sensibilidade que adquirimos ao trabalharmos, ao longo dos anos, nas áreas de QA (Quality Assurance), Gerenciamento de Mundos Virtuais e TL em lugares como os Disney Online Studios, com MMOs como Club Penguin e Piratas do Caribe, empresa esta e jogos para os quais nunca poderíamos ter usado a tradução literal da carta, “Tapa-olho do Comando”, simplesmente por fazer referência não apenas ao significado de comando como “quem (co)manda”, mas também à organização criminosa, o Comando Vermelho, algo totalmente inadequado para jogos infanto-juvenis e, decidimos, também para nossos jogos de tabuleiro, ainda que também mirados no público adulto. (E vai que um irmão do PCC seja aficionado de boards, tome as dores e queira sequestrar este tradutor que vos escreve? O salário mal dá pras contas, imaginem pro resgate?! O chefe, quer dizer, a chefia? Também tá no vermelho… “A-há!”

Sobressalta-se o board-bandido, “Então, parça, você confirma que o Comando da carta faz apologia ao Comando Vermelho?”. “Não, irmão, Comando pode querer dizer Primeiro Comando! Se eu to de tiração? Não, parça… Vixe, tu não é meu parça, sei…)

Por ora é só, kroníades! Assim que a chefia liberar o adiantamento mensal para o resgate (pois é, tradutores só valem essa mixaria mesmo!) eu volto com a terceira parte do Localizou a Tradução, falando sobre porque não traduzimos o título do Thief’s Market e as traduções que dispensamos. Que Kronos esteja com vocês!

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Por |2016-07-19T23:07:42+00:0019 de julho de 2016|Desenvolvimento, Kronos Games, Thiefs Market|0 Comentários

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