Salve, kroníades! Quem vos escreve é o Fábio Gullo, tradutor/localizador do manual de regras do Thief’s Market para português brasileiro (sim, brasileiro, porque traduzir e especialmente localizar para o português de Portugal seria beeeeeem diferente).

Nesta postagem, com a ajuda do Persio Sposito, responsável pela localização das cartas, vou falar um pouco sobre localização (que diabos é esse bicho) e, mais especificamente, sobre o processo de TL – como passarei a abreviar “tradução/localização” – do Thief’s Market, que, todo o mundo já sabe, é o primeiro jogo lançado no Brasil pela Kronos Games.

Em tempo, teremos outras postagens falando do processo de TL de outros jogos (o próximo será o do Yokohama).

Localização, resumidamente, é a parte da tradução que se preocupa em adaptar ou aclimatar os termos próprios de um determinado jogo à cultura de destino, de modo que o texto não só fique inteligível, mas também soe tão natural quanto se tivesse sido originalmente escrito por nativos daquela cultura. E mais: a TL se preocupa com que o ambiente e o clima do jogo se adaptem à cultura de chegada. E ainda mais: para dada empresa, a TL engloba não só o jogo do momento, mas jogos futuros, e tanto os a ele relacionados por temática, por exemplo, quanto quaisquer outros, isso por questão de coerência e “estilo da casa”: algumas opções (diretrizes e termos pontuais) de TL, uma vez estabelecidas para um jogo, passam a ser adotadas em todos os jogos subsequentes da mesma empresa, coisa que já estamos experimentando na TL do Yokohama em relação à TL anterior, do Thief’s Market.

Um exemplo ajudará a entender: sendo o tema do Thief’s Market o submundo do crime, no caso da carta Bookie, no lugar de optarmos pela tradução literal – algo como “agenciador de apostas”, que soaria excessivamente formal –, porque não nos inspirarmos na nossa famosa malandragem e no tal do jeitinho brasileiro, duas ideias que têm tanto a ver com o tema do jogo e que, principalmente, são exclusivas da nossa cultura, e preferirmos o termo “bicheiro”? Ele pode não traduzir 100% o significado do termo original, mas, tal exatidão não sendo em absoluto necessária para a compreensão e bom andamento do jogo, e bem ao espírito de trapaça deste, optamos pelo “mais legal” no lugar do “mais correto”.

Uma das diretrizes que adotamos foi a de dar preferência a termos próprios brasileiros, porém, dentre estes, aos de uso o mais comum, isto é, os de maior circulação no território nacional, evitando, sempre que possível, termos excessivamente regionais. O que me leva à questão da riqueza natural da nossa língua: decidimos, é claro, explorá-la ao máximo. No manual original em inglês, por exemplo, para se referir aos jogadores, usa-se exclusivamente a palavra thieves (“ladrões”). Na tradução, ora usamos ladrões, ora gatunos (“quem será o rei dos gatunos?”), ora larápios, ora, até, trombadinhas (no final de uma partida, se houver empate, o primeiro jogador a agarrar o marcador de primeiro jogador e sair correndo gritando para os outros, a la Doctor Evil, “Seus trombadinhas de meia-tigela! Muahahahaha”, vence o jogo).

Outro exemplo, ainda do manual, é a tradução do slogan. Em inglês ele é bem simples e direto, “You are all thieves!”, quer dizer, literalmente, “vocês são todos ladrões!”. Nós achamos mais interessante usar um termo bem brasileiro, em parte malandro, em parte depreciativo (o que tem tudo a ver com o tema do jogo e com sua natureza competitiva): “Vocês não passam de uns ladrões!”.

Uma peculiaridade da tradução que vale a pena citar – em seguida, para encerrar, darei mais alguns exemplos de TL extraídos dos títulos das cartas – foi a nossa tradução para o termo original “drafting/stealing” (“selecionar/roubar”), que se refere ao tipo de jogo. O que percebemos foi que esse termo poderia ser melhor aproveitado, em termos de propaganda, como nome da mecânica mais original do jogo, a qual permite que os jogadores optem, a todo momento, entre apanhar dados do centro da mesa ou rouba-los dos montes dos outros jogadores. Sendo esse o caso, percebemos também que, como marca registrada, seria melhor seguir o exemplo pioneiro desse tipo de mecânica, o famoso roll & keep do RPG Legend of Five Rings, de modo que chegamos à tradução “pegar & roubar”. Essa mudança de foco, de um termo que se referia ao tipo do jogo para termo que se refere ao tipo de mecânica única do jogo, somada à mudança da barra em “drafting/stealing” para o “&” em “pegar & roubar”, podem fazer muita diferença!

Para encerrar vou citar/comentar as TLs mais interessantes dos títulos de algumas cartas, deixando por última a que, na minha opinião, é a mais bacana de todas. Atentem, sempre, para o emprego de termos os mais brasileiros possíveis!

Nearby Safehouse. Tradução literal: “Esconderijo Próximo”. Tradução adotada, mais coloquial: “Esconderijo Logo Ali”.

Concealed Safehouse. A tradução literal, “Esconderijo Oculto”, constituindo pleonasmo (se é um esconderijo, já está oculto), foi preterida e optamos pelo marginal “Esconderijo nas Quebradas”.

Easily Impressed Noble ou “Nobre Facilmente Impressionável”, virou “Nobre Interesseira”.

Imbalanced Scale poderia ser “Balança Desequilibrada” ou, um pouco melhor, “Balança Desregulada”, mas optamos por “Balança Viciada”, que, além de manter o sentido original de um instrumento que fornece o peso errado, dá a entender não uma balança quebrada por acidente, mas uma desregulada como resultado de um ato criminoso.

Insurance Racket. Algo como “Extorsão em troca de proteção”, ao que preferimos “Seguro anti-treta”.

Finalmente, Alchemical Lab, quer dizer, “Laboratório Alquímico”, ao que preferimos “Alquimia do Mal”, referência à TL que a emissora SBT usou para sua versão da série Breaking Bad, “Química do Mal” – no nosso caso, alquimia em vez de química por conta do cenário medieval do jogo.

Por hoje é só, kroníades, mas prometemos voltar em breve com mais uma edição de Localizou a Tradução? Dessa vez para ” Yokohama”, se é que vocês confiam na palavra de ladrões 😉

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